19.11.04

Devido a uma história familiar traumatizada com a palavra “cancro”, conheço bem o mundo das endoscopias, colonoscopias, mamografias e biópsias. Tenho certos cuidados (à parte o hábito de fumar) que foram criados pelo peso de poder ser mais uma causa de sofrimento para a família. A tão sofrida família. “Cancro” é uma palavra dolorosa e com a qual não se brinca neste seio. Cresci com isso. Com esse peso. Com o peso de saber que não posso ser mais uma vítima. Peso comum a qualquer pessoa, mas acrescentado àqueles que partilham genes comigo.
Há uns meses morreu o pai de uma amiga minha. Depois de passado algum tempo, disse-lhe hoje, no tom mais leve que consegui arranjar: “Devias fazer uma colonoscopia todos os anos. Esse é dos cancros mais hereditários que existe.” A resposta foi em tom impotente: “Eu sei. O meu avô morreu com isso. Por isso é que o meu pai fazia uma de seis em seis meses. Serviu de muito não foi?!” Lembrei-me de umas palavras que uma tia (e muitas outras tias) repete frequentemente e me irritam muito – O que tem de ser tem muita força!
Somos, de facto, impotentes perante a força que nos rege.

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